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Ressaca Brasileira: Entre a Copa do Mundo e a Greve dos Caminhoneiros

por Redação Momento Critico 23/06/2018

A Copa do Mundo de 2018 começou oficialmente no dia 14 de junho com o jogo entre a Rússia e a Arábia Saudita. Apenas três dias depois foi a vez do Brasil estrear na competição, jogando contra a Suíça. Ao que tudo indica, o Brasil não entrou na competição com o pé direito, uma vez que seu primeiro jogo foi encerrado com empate em Brasil 1 X 1 Suíça.

Em tempos anteriores, o período pré Copa do Mundo seria marcado nacionalmente como um momento de fortes sentimentos nacionalistas e mobilização em todo o país. Até muito pouco tempo atrás, a população aguardava o início da maior competição de futebol do mundo com ansiedade e nervosismo. Qual será a escalação do técnico? Como será a estréia do Brasil na Copa? Quais serão os adversários mais perigosos para o Brasil nas primeiras partidas? Essas eram algumas dentre inúmeras perguntas que não saíam da cabeça do brasileiro.

Ao que tudo indica, o ano de 2018 veio para mostrar que o Brasil e o brasileiro já não é o mesmo. Com bares cada vez mais vazios de fanáticos por futebol e cada vez mais cheios de fanáticos pelo desenrolar de julgamentos do judiciário envolvendo políticos e das manobras do Temer para evitar novas paralisações dos caminhoneiros, parece que os temas que ocupam a cabeça e as conversas dos brasileiros já não é o mesmo.

Nesse artigo você ficará a par das principais hipóteses associadas as mudanças de interesse dos brasileiros ao longo desses últimos quatro anos, desde a última Copa do Mundo. Boa leitura!

copa do mundo

O brasileiro e a Copa do Mundo

Pode-se dizer que a Copa do Mundo de 2018 começou e está se mostrando diferente que qualquer outra Copa para os brasileiros.

De modo geral, o povo brasileiro aguarda pela Copa do Mundo ansiosamente. Mesmo antes da competição ter início, é normal encontrar ruas, fachadas de lojas e casas em algumas das maiores cidades do Brasil decoradas de verde e amarelo e com dizeres que associam o povo brasileiro ao futebol.

Isso não aconteceu em 2018. Ou não aconteceu na proporção esperada, para se dizer o mínimo.

Do patriotismo e orgulho de ser brasileiro à ausência quase total de preocupações com as infinitas contusões da estrelinha Neymar

Bares estão cada vez mais recheados com fãs preocupados com a recuperação física de Neymar, correto? Errado. Ao que tudo indica, os fãs de Neymar estão escondidos em casa ou trancados no trânsito, afinal de contas, algo está os afastando dos bares. Ou será que eles estão lá, mas não estão debatendo as incontáveis contusões da estrelinha brasileira?

O que está ocupando a cabeça e a preocupação dos tão fanáticos admiradores do futebol brasileiro?

Era de se esperar que o início da Copa do Mundo fosse trazer todo o patriotismo, os sentimentos nacionalistas e o “orgulho de ser brasileiro” ao povo, como costuma ocorrer a cada quatro anos. Afinal de contas, sabe-se que quando o assunto é carnaval ou futebol não há quem possa com o Brasil, não é mesmo?

 

Entretanto, as contusões do Neymar e a escalação claramente equivocada do técnico Tite parecem não fazer a cabeça do povo nesse 2018.

Após o início da competição houve um crescimento no interesse nacional sobre os aspectos de saúde da estrelinha, é verdade. Ainda assim, a população está longe de demonstrar toda a preocupação e entusiasmo com a seleção brasileira que normalmente demonstrava a essa altura do ano.

A Copa 2014 e o trauma não elaborado

Alguns analistas esportistas acreditam que esse desinteresse crescente entre a população brasileira quando o assunto é futebol ou, mais especificamente, a Copa do Mundo é resultado do trauma deixado por 2014.

Apesar dos quatro anos passados, parece que aquele 7 x 1 nunca esteve tão presente. Estudo publicado no Datafolha no início de junho de 2018 – antes do início da Copa do Mundo – demonstrou aumento em quase 70% de tags nas redes sociais sobre o resultado Alemanha 7 x 1 Brasil. Por algum motivo, a aproximação com uma nova Copa do Mundo fez o brasileiro se lembrar novamente do acontecido, ou os fez voltar a falar sobre o assunto, no mínimo.

O mesmo estudo divulgado pelo Datafolha demonstrou que cerca de 21% dos usuários que em 2014 faziam publicações com hashtags ovacionando a seleção brasileira e acreditando que o hexa chegaria mudaram de comportamento em suas publicações web: entre dezembro de 2017 e junho de 2018 esses usuários publicaram quase 30% mais piadas fazendo chacota dos jogadores brasileiros ou desacreditando a seleção escalada que o restante dos internautas.

Essa clara alteração no comportamento online pode, sim, ser resultado de um trauma não elaborado que se manteve nas sombras por quatro anos e, finalmente, parece estar voltando à claridade com força.

Entretanto, existem outras teorias sobre o desinteresse nacional com a Copa do Mundo.

Tite – Vilão ou vítima?

Alguns especialistas do jornalismo esportivo do Brasil afirmam que esse desinteresse é resultado da escalação feita pelo técnico, o Tite.

De acordo com essa hipótese, montar uma equipe onde apenas três jogadores atuam em clubes nacionais faz com que o povo brasileiro não se veja naquela equipe e, consequentemente, não gera o sentimento de empatia e nacionalismo tão comum e recorrente nas Copas anteriores.

Alguns especialistas afirmam que a seleção foi pessimamente escolhida, e não apenas pela pouca representatividade de jogadores que atuam no Brasil. De acordo com esses jornalistas, o nível de habilidade da seleção está muito abaixo do nível de qualquer outra seleção brasileira que já foi para alguma Copa do Mundo.

Veja que isso é responsabilidade do técnico, mas não apenas dele. Especialistas salientam para a ausência de jogadores suficientemente qualificados para disputar uma competição com o nível de exigência da Copa do Mundo. Quem escolher quando não há quem escolher? O Tite é responsável pelas escolhas que faz, é evidente. Mas como montar uma seleção decente sem contar com jogadores qualificados para escalar? Naturalmente, nenhum jornalista teria o disparate de afirmar que o Brasil não possui nenhum jogador de alto nível. O que se debate é a escassez desses, quando comparado ao passado, onde era difícil escolher apenas alguns dentre a cartela enorme de opções.

A baixa empatia e representatividade produzida pelos jogadores escalados estão entre as razões mais citadas para a apatia demonstrada até o momento pelo povo brasileiro em relação ao desfecho da Copa do Mundo 2018. Entretanto, há ainda outras alternativas para o cenário atual de alienação em relação aos jogos da Copa.

Inversão de prioridades

Datafolha demonstrou que entre os anos de 2010 e 2018 a quantidade de brasileiros que concordam com a frase: “não estou nem aí para o que acontece no futebol, incluindo a Copa do Mundo” aumento em 10%, passando de 31% em 2010 para 41% em 2018.

A pesquisa do Datafolha demonstra, mais uma vez, o enfraquecimento que o esporte símbolo do brasileiro vem tendo na população.

O estudo apontou, ainda, para tendência linear entre renda familiar e interesse pelo futebol. De acordo com o Datafolha, a medida que a renda familiar diminui o interesse pelo futebol também reduz. Em outras palavras, a população mais pobre é a que menos se importa com as novidades do campeonato ou com as habilidades dos jogadores.

O que parece estar fazendo a cabeça dos brasileiros em 2018 é o destino político, social e eleitoral do Brasil.

Na medida em que as conversas de bar sobre o Tite, o Neymar e a seleção parecem reduzir, os bares parecem ser tomados por especialistas e estudiosos da legislação brasileira altamente preocupados com o rumo do país neste ano de eleição.

  • Qual a legalidade e os efeitos a curto, médio e longo prazo da greve dos caminhoneiros?
  • Quais soluções podem ser tomadas pelo presidente Temer para evitar e queda do poder poucos meses antes das eleições?
  • Qual o papel do exército brasileiro e em quais circunstâncias o mesmo pode intervir retirando o presidente do poder?
  • Quem serão os candidatos à presidência e como estão as pesquisas de intenção de voto?
  • Lula disputará as eleições de 2018 e qual sua probabilidade de chegar ao poder?
  • Quais candidatos disputarão o segundo turno de 2018?

São muitas as questões discutidas fervorosamente nas redes sociais, nos almoços de domingo e nas mesas de bar, ainda que elas não digam respeito ao cenário esportivo atual.

Grupo de brasileiros que viajam para a Rússia com o objetivo de acompanhar de perto a Copa 2018 fazem piada de mau gosto regada à machismo, misoginia e racismo com mulher russa que não compreenda português. A notícia se torna viral na Internet em poucos minutos e promove mobilização de diversos movimentos no mundo, em especial aqueles que combatem machismo e racismo e/ou buscam por conquista de direitos para populações específicas.

No Brasil, a notícia parece ter tido maior impacto na grande massa do que o andamento da própria competição. Artistas brasileiros fazem nota de repúdio ao ocorrido. Feministas mobilizam boa parte das internautas com reflexões sobre a manutenção de comportamentos implicitamente violentos e violadores, como esse. Movimentos anti racistas posicionam-se firmemente sobre penalização para atos nojentos e claramente racistas.

Mesmo quando o assunto é a Copa, o tema e discussão parece não ser o que acontece no gramado. Ao que tudo indica, quem usa as chuteiras parece ser o que menos importa para os brasileiros.

Levantamento do Datafolha demonstrou que mais de 80% da população brasileira apoiou a greve dos caminhoneiros. Esse número é uma surpresa, considerando a baixa adesão de apoiadores da grande maioria – para não dizer todas – as manifestações e mobilizações anteriores que buscavam por manutenção ou expansão dos direitos da população.

E agora?

O que essa inversão de prioridades e interesses representa para o povo brasileiro? Quais os efeitos a curto, médio e longo prazo dessa mudança?

Essas são perguntas que somente o futuro vai conseguir responder. O que parece certo, entretanto, é que os brasileiros estão deixando a paixão pelas chuteiras de lado e as substituindo pela paixão por discussões fervorosas sobre o cenário social e político atual.

Que tal manter os olhos e ouvidos atentos e nos ajudar a refletir sobre o impacto dessas mudanças?

O que você acha que podemos esperar para o futuro do Brasil? Deixe um comentário e compartilhe essa reflexão com seus colegas e amigos.

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